quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Desdém.



Odeio-te de um ódio pequenino, de uma raiva comezinha, de um desprezo ensaiado. Quero-te longe, ali ao virar da esquina e nunca mais te ver. Salvo as horas que passar debruçada na janela, em bicos de pés, a prometer a mim mesma que não grito. Quero pôr-te com dono, num avião para o outro lado do hemisfério, sem bilhete de regresso. E fazer paciências em casa, em sobressalto, sempre que ouvir ranger as escadas.

Quero que partas de uma vez, malas e bagagens, sem olhares para trás.
E que me deixes uma pista, um mapa, um enigma por resolver, que me leve até ti todas as noites.

domingo, 12 de junho de 2011

Insónia.



Não sei com que raio de milongas e macumbas te entreténs, mas estás a dar cabo de mim.
Descansa, só te cobro igual insónia.

sábado, 18 de setembro de 2010

En garde.


Há uma carga cómico-trágica neste afastamento de armas em punho, costas voltadas, dez passos para cada lado, 'juro que disparo'. Não sei se é esta dimensão teatral que nos segura pelo colarinho, se a certeza da corrida em marcha-atrás, com os caminhos decorados, sem precisarmos de mapas, quando se nos acabar a pólvora e formos comparar feridas de guerra. Mas posso garantir-te que o leitmotiv desta encenação continua a ser, em pleno combate, de ar menineiro no rosto, sussurrar-te um convite para um chá das cinco.

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Toujours.

My Summer Of Love

E ficam-me, sempre, estas saudades lacónicas do amor que não se fez e do bem que, apesar de tudo, se quis.

terça-feira, 6 de julho de 2010

Sentença.



E voltamos sempre ao mesmo, a este bê a bá decorado a custo, a esta falta de combustível, de combustão. É mais fácil assim, não é? Não se exige o que nunca se teve, não se cobra o que não se dá, é um descanso regalado. 'Pró raio que o parta, que se dane, que se lixe, lavo as minhas mãos.
Uma borracha sobre o que ia escrever.
Não se fazem poemas sobre amores assim.

sexta-feira, 14 de maio de 2010

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Eu nunca tive um heterónimo.
Enquanto umas são Eugénias
e outras são Quitérias
Eu oscilo entre o Teresa e o Maria
(é ao contrário que consta no B.I)
E sou só uma.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Dante.


Não sei se consigo fazer-te jus, meu menino.
A ti, que te atravessaste na minha vida, numa noite de nevoeiro em que, surpreendentemente, os meus olhos míopes conseguiram vislumbrar-te. Lembro-me de encostar o carro, intrigada por aquele viajante de linhas claras que corria, imprudente, estrada fora. Só tive a certeza que eras tu quando me olhaste, que olhos como os teus não mentem. Tinha-los num tom amarelado, a mirarem direcções diferentes, não fosse alguma coisa escapar-te. Foi um martírio conseguir apanhar-te e trazer-te comigo, no colo, todo tu tremeliques e medo.
A mãe foi difícil de convencer: foi preciso lavar-te, limpar-te as pregas e as orelhinhas, para que te mostrasses em todo o teu esplendor. Se nos primeiros dias ainda estavas amedrontado, entregue à exploração receosa de uma casa demasiado grande, rapidamente mereceste o nome que te dei. Dante. Esse poço de contradições feito gato, nem bom nem mau, um meio-termo de doçura e altivez, de energia e preguiça, de alma preenchido.
Assim te amei, a ti e à tua correria escadas abaixo, quando me pressentias chegar; aos teus beliscões e mordidelas nos calcanhares, se me sentias demasiado atarefada e pouco atenta às tuas acrobacias. Ao novelinho em que te tornavas quando, sem contar, te enroscavas a meu lado, para adormecer. Os olhos semicerrados pela ternura, um sem-fim de companheirismo e amor silenciosos. Assim te criei, a reivindicar o nome de mãe e a querer ter-te como uma, com direito a ciúmes, lições e umas sapatadas valentes quando esgravatavas a terra dos canteiros ou fugias para o terraço, mal se abria uma nesga da porta. Como eras avesso à autoridade e fazias pouco do que te dizia, alertei encarecidamente os restantes membros da família que o terraço era lugar proibido para ti. Achavas-te maior do que o teu tamanho, mais capaz do que as tuas pernitas de meio palmo, explorador afoito dos telhados e do terraço vizinho. Como tal, passaste a ficar da parte de dentro, a olhar lá para fora, a mirar os prédios em frente, as cores do céu e do mar, e o reino que estava para lá do vidro da janela que tanto querias transpor. A verdade, meu menino, é que preferia ter-te comigo, a arranhares-me sem contar, a acordares-me do sono com um ronronar que reclamava aconchego, do que por aí, num telhado qualquer, mais perto de deixares de ser meu.
Mas ontem, que me apanhaste ausente, escapuliste-te e fugiste, terraço fora, narizinho no ar à procura de novas descobertas. Tanto te avisei, meu bicho, que podias cair...


Não pude ver-te, levaram-te antes que pudesse envolver-te nos braços, roubar-te uma mecha de pêlos macios ou um bigodinho, para usar junto ao peito. Ficam-me as marcas das tuas unhas, do teu miar, dessa alegria a encher-me a casa, dessa espontaneidade que não se ensina.
Resta-me fechar os olhos e crer que, quando os abrir, me invades o quarto, fazes duas ou três piruetas e aterras no meu colo, a olhares-me de soslaio, a roubares-me um abraço daqueles, a que te habituei. Os braços à tua volta, os teus olhos nos meus e os teus suspiros de contentamento, até adormeceres.



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